Diário de Viagem - Explorando Minas Outra Vez (Final)





(Leia a primeira e a segunda partes aqui e aqui.)

Não sei como explicar. Eu tenho problemas para dormir onde quer que não seja a minha casa. A casa onde minha avó mora, especialmente falando, tem algo que, como se diz em inglês, scares the hell out of me, ou seja, me assusta muito.

Pode parecer bobagem pra muitos, mas naquela casa tinha qualquer coisa que não bateu comigo. A casa é muito antiga – só não digo que é tão velha quanto a cidade, porque a cidade é bem mais velha. Daí que, quando fui dormir, fiquei lá, de zoião aberto, olhando para o escuro.

Só faltou ter medo dos monstros debaixo da cama. NÃO RIAM!

Comecei a pensar em algo que pudesse me distrair até eu dormir (porque cansada eu já estava). SIM! O mp3 player. “Chuchei” os fones nos ouvidos e comecei a me distrair. Aí eu dormi. Quando acordei, não tinha mais música, claro. A bateria tinha ido pro saco.

A igreja em que meus avós se casaram
Logo na manhã do sábado, com todo o friozinho (lá naquela cidade faz um frio do cão), fui caçar um café da manhã decente. E o que é um café da manhã decente, meu povo? TONELADAS DE PÃO DE QUEIJO. Leite direto da vaca e biscoitos de polvilho. Não tem erro.

Nesse primeiro dia até que foi bacana: ficar de papo pro ar se fazer nada, andar a esmo. A notícia de que estávamos na cidade (pelo menos metade dela é parente da minha mãe, logo, meu parente também) correu e logo diziam que iríamos ficar um mês. *pausa para rir histericamente da fofoca*

Visitas e mais visitas para ver os velhos amigos da minha mãe e ouvir histórias pitorescas sobre o passado. Boas risadas. Mais café e mais pão de queijo. Assim eu iria embora arrastada por um guindaste de tão gorda.

O único problema, de novo, foi dormir. Lembrei-me de uma coisa sobre a minha avó: ela não dorme com as galinhas. Dorme antes delas, para poder acordá-las na manhã seguinte. Isso equivale dizer que quando deu SETE E MEIA DA NOITE ela já estava puxando o ronco literalmente. Como lidar com isso? Eu não podia ver TV, não podia zanzar pela cidade porque não havia nada para fazer e mesmo que houvesse... como eu iria entrar na casa de novo? Ia acordar todo mundo?

Mapa da Estrada Real
Olhei para o mp3 player. Ele olhou pra mim. 

Teríamos uma noite tórrida... de novo.

Ok, ok. Manhã de domingo. Repetir o processo do café da manhã. Andar por aí e tirar umas foteeenhas. E descobrir que eu iria morrer de tédio em breve. Poderia fazer várias coisas (como visitar a cidade das empadinhas, que fica razoavelmente perto), mas sem carro, não dava. E descobri outra coisa desagradável sobre a cidade: não tem ônibus. Não tem meio de transporte. Se você não tem carro, está na roça.

OH WAIT.

O jeito foi entrar em modo off mesmo e fazer algo que não fazia há séculos: ABSOLUTAMENTE NADA. Só que até fazer nada cansa. Eu alternei entre algumas visitas com a parentada, conversas com a vó e dormir profundamente.  Tá bom, vai. De vez em quando é bom não fazer nada assim.

Em frente à igreja
Dia seguinte, hora de ir embora. Não sabíamos ao certo o que iríamos fazer, se ficávamos em BH mais uns dias, se visitávamos outra cidade... eu e minha mãe iríamos decidir o que fazer quando chegássemos lá. Bora entrar no busão from hell que acabou com meu joelho de novo, bora ficar “agarrada” no trânsito em plena manhã de segunda... mas o que foi legal é que, com o ônibus é obrigado a cruzar a cidade para chegar à rodoviária, pude ver mais coisas. Vi o Parque Municipal e, pelo menos de longe, me pareceu muito lindo. Um lugar para se visitar quando voltar à cidade.

Notaram o formato de coração? <3


Depois de guardar as tralhas na rodoviária de novo, hora de curtir o Mercado Central como devido. E dessa vez nada de dar bobeira: ir de táxi da rodoviária até lá é muito barato. Não vale a pena sair andando, não. Menos de dez reais, na ida e na volta; e aqui devo fazer um elogio aos dois taxistas que nos atenderam: honestos quanto ao preço, foram direto pro destino e foram muito, muito simpáticos. (Digo isso porque em São João Del Rey, quando fui, não tive a mesma sorte).

E aí sim, o Mercado em todo o seu esplendor. Uma coisa que se diz muito sobre BH é que lá é visita obrigatória. E é MESMO. Não deixe de ir de modo algum, passando ou ficando por lá. Conheço o Mercadão de São Paulo e olha: sinceramente, nem esse bate o mineiro, viu. São muitas lojas, onde se encontra de tudo. Tem desde artigos baratinhos até os mais sofisticados. É realmente um lugar democrático.
Fiquei horas lá, andando, admirando, e claro, comprando. Fiz a festa. Comprei doces, queijos, pequenas bugigangas, artesanato. É um paraíso, de fato. Você fica perdido com tanta coisa legal que tem lá dentro.

Ren!
Ah, e encontrei até uma loja com artigos indianos. Tinha um cosplay do Ren, de A Maldição do Tigre, lá dentro. Lindo. 

Não queria sair de lá, juro, mas o corpo já estava reclamando. Claro que não iria embora sem verificar outra lenda de Beagá: a comida de boteco. Tem até festival, como muitos de vocês já saibam, mas no meu caso, foi uma coisa mais simples, mesmo. Foi um ‘almoço de boteco’, por assim dizer.

Chegando ao Bar do Mané Doido lá no mercado você não dá mesmo nada por ele. É um bar que leva a sério o conceito de ‘boteco’. Não menospreze o bar pelo preço barato. A comida é simples, caseirinha mesmo, mas olhem. OLHEM.

Eu nunca comi um troço tão gostoso na vida. Tive que tirar uma foto pra vocês verem: é um prato feito, sim, mas é o melhor prato feito que já vi na vida! Comida pra um batalhão. É simplesmente delicioso. Estou com saudades desse feijão tropeiro até agora, e juro que se morasse em Belo Horizonte, iria lá comer toda semana. É inacreditável de tão bom.

Como não poderia morar lá dentro do Mercado, fui embora com o coração na mão e jurando voltar um dia.

Daí...

De volta à rodoviária, sem saber direito pra onde ia (estava quase voltando pra Ouro Preto, perto, baratinho), minha mãe arregou e acabou pedindo pra gente voltar pra casa. Confesso que a maratona me cansou também, e acabei concordando. Queria muito ter ficado mais, não vou mentir. Mas isso de ficar de um lado pra outro não é mole, viu minha gente? Ainda mais carregando coisas pra lá e pra cá.

Dos deuses!
Mas valeu a pena. Mais que os cacarecos de lembrança, trouxe na bagagem lembranças legais, céus azuis, novos horizontes e novas paisagens gravadas nos olhos. E a certeza de que viajar é uma das melhores – senão a melhor – coisa da vida.

Agora é começar a contagem regressiva para as férias do ano que vem! 

Diário de Viagem - Explorando Minas Outra Vez (Parte II)



(Leia a primeira parte deste relato aqui.)

Uma coisa eu já aprendi quando vou a Minas: nunca, mas NUNCA mesmo, confie no senso de distância de um mineiro. Para eles tudo é logo ali. Se você perguntar a um amigo das lindas terras mineiras se a Groelândia fica longe, ele irá apontar com o queixo, dizer que é ‘pertim’ e você passará o resto da vida tentando chegar lá.

Agora, o que eu não sabia é que o Google Maps foi feito por mineiros. É a única explicação possível, porque, sabendo que haveria um intervalo considerável entre um ônibus e outro (de Belo Horizonte à cidade para onde eu iria), tratei de saber aonde ficava o Mercado Central –um dos grandes objetivo da nossa viagem, afinal.

Segundo o Google, levava cerca de dez minutos para chegar lá a pé. Como não sou boba nem nada, li vários relatos de viagem (em fóruns de mochileiros, que costumam andar a pé) para saber se era seguro.
E os relatos não falavam muito bem dos arredores da rodoviária.

Ainda assim, depois de encher o bucho de pão de queijo tomar café, fui me informar no guichê de informações turísticas se era mesmo verdade tudo aquilo.

E aí começa a ideia de jerico que minha mãe endossou. A mocinha do guichê disse, com toda a gentileza mineira, que àquela hora não tinha muito problema não, e que era bobagem pagar táxi pra ir até lá, já que era tão perto.

Minha mãe, que pode transportar com segurança um sonrisal a nado saindo daqui e chegando no Oceano Índico, adorou a ideia de não ter que gastar com táxi. Eu nem discuti. Lá fomos nós para o Mercado Central.

Tão me vendo ali no meio? (Foto daqui)
A primeira coisa que me disse que algo iria dar errado era o trânsito belo-horizontino. Sozinha, eu me viro bem, mas com a mãe do lado, sair correndo pra atravessar as ruas não era uma opção. E o que eu encontrei nas ruas foi algo parecido com o trânsito da Índia.

Não me levem a mal. Sei muito bem o que é estar num trânsito caótico. São Paulo que o diga. Mas... como dizer? Tem uma certa ordem no caos de lá. Em BH, é um tal de cada um por si e Deus pra todos que me assustou. O povo lá corre demais. *insira sotaque mineiro aqui*

Sobrevivemos  ao cruzamento de todas aquelas ruas, e fomos descendo a avenida em direção ao nosso destino. Nós andamos.

E ANDAMOS.

E ANDAMOS MAIS UM POUCO.

Eu não disse que o cara que mapeou a cidade e mediu as distâncias pro Google era mineiro?

Quanto aos arredores, infelizmente a área é tão decadente quanto qualquer área decadente em uma cidade grande brasileira. Cheiro de urina. Sujeira. Muitas pichações.

Praça Raul Soares
Chegamos a uma praça que estava começando a ficar movimentada naquele começo de manhã, a praça Raul Soares.  Uma praça bem bonita, por sinal. Muitas rosas. A praça é bem cuidada. E habitada. Vi vários moradores de rua por lá.

Antes que pudéssemos ter problemas com abordagem indesejada, puxei minha mãe pelo braço e fui andando para o Mercado, que deveria ter acabado de abrir.

Tarde demais. Quando vi, um mendigo pulou na nossa frente pedindo alguma coisa. Neguei, mas ele foi chegando mais perto. Não sabia se eu gritava, se chamava a polícia, se dava um hadouken nele. Por sorte, apareceu uma moça, que foi nos puxando e mandou o mendigo passear.

Sabia que ficar andando por ali era ideia de jerico. Uma pena que tenha de ser assim, viu.

A única foto que consegui tirar da fachada.
Refeitas do susto e já dentro do Mercado, havia poucas lojas abertas.  Claro, tinha acabado de abrir. Mas as poucas lojas abertas foram suficientes pra me causar um siricotico, porque eu adoro uma tranqueira. 
Canecas, panelas de cobre e de ferro, enfeites.

E queijo. MUITO queijo. E doces. Um paraíso para  uma gordinha tensa.

Paraíso é uma boa definição para o lugar!
Pense na incoerência de ficar andando por aí com um monte de sacolas na mão, ainda com viagem pra seguir. Mas quem disse que eu sou coerente? E eu ainda iria voltar ao Mercado.

Mais tarde, de volta à estrada, a viagem ficou meio desconfortável. O ônibus não era exatamente do último tipo. Aproveitei para tirar umas fotos pela janela mesmo, já que não tive tempo de andar mais pela cidade. Belo Horizonte é uma cidade muito bonita. 
Cuidando das canelas na rodoviária

Vamos ignorar o fato de que, depois de algumas horas, eu já estava mais espremida que cação em lata de atum. Na parada, em Congonhas do Campo (nem dá pra ver a Basílica de Matosinhos, antes que me perguntem), eu fui obrigada a dançar kuduro pra desenferrujar os joelhos, que já estavam me matando (graças à curta distância entre os bancos).

Quando chegamos ao nosso destino, já estava acabada, cansada e empoeirada. Claro, arrastando malas cheias de queijo, que pobreza aqui é mato. Depois daquela coisa toda da recepção da minha vó, dela ficar emotiva e comer quase todos os chocolates que levei de presente pra ela (esse negócio de ser gordinho tenso deve ser genético), finalmente pude descansar.

Descansar, porque dormir foi meio... complicado.

***CONTINUA***
 
 


Minhas Mãe e Meu Pai [The Kids Are All Right - 2010]



As lésbicas Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore) têm um casamento estável, mas a relação é virada de cabeça para baixo quando seus filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), resolvem trazer Paul (Mark Ruffalo), o pai, doador de esperma, de volta para suas vidas. As coisas, evidentemente, ficam cada vez mais complicadas quando Jules se envolve-se com Paul.

Bem, antes de mais nada vamos deixar uma coisa bem clara: eu SÓ VI esse filme por causa do Mark Ruffalo. Eu pirigueto ele mesmo, na caruda, admito. Vejo qualquer filme em que ele esteja no elenco (e meu preferido ainda é Minha Vida Sem Mim, e nenhum outro com ele ainda o bateu).

Isto posto, vamos direto aos fatos: não gostei do filme. É. Não gostei. Dizendo melhor, não gostei do desfecho do filme. Mas eu chego lá.

Minhas Mães e Meu Pai é um filme bacana. Despretensioso, divertido. Lida com temas complicados e delicados (casal lésbico, inseminação artificial blá blá blá) de modo bem leve. Não consegui ver muito esse filme como uma comédia (estou até agora pensando em que parte deveria rir), mas estava gostando do filme.

O trunfo do longa é tratar o lance da homossexualidade do casal protagonista como uma coisa comum, sem drama. A família de Nic e Jules é uma família como outra qualquer, no que toca à convivência com os filhos, com os problemas que qualquer casal pode ter. Acho bacana sair um pouco dessa visão estereotipada de um casal gay.

Adorei o Paul (heh, como poderia não adorar? Era o Ruffalo fazendo o papel, caramba!). Gosto da atitude de "sou o que sou, tou nem aí pro mundo". Ele é um cara bem resolvido, direto, e bem sensível, sem ser piegas.

Gostei de todos os personagens, com exceção de Nic. Eita, que mulherzinha chata e pedante! Sabe o tipo dominador e dono da verdade? É Nic. Ela não anda muito ligada na relação com Jules, não dá o menor apoio no novo projeto de trabalho da companheira (tudo bem, ela fracassou outras vezes, mas o desprezo dela pela nova tentativa de Jules foi o que abriu o caminho para o envolvimento desta com Paul). Eu não aguentaria viver com ela mais do que vinte minutos.

Quando eu achei que a história iria continuar com esse padrão e escapar dos clichês e ter um desfecho diferente...

Bom, antes de usar meu botão de spoiler, devo dizer que, se você já leu Questões do Coração, da Emily Giffin, sabe exatamente como esse filme termina. É igualzinho. (Selecione o texto abaixo para ver o spoiler.)

[SPOILER]Não me conformei com o fato de que toda a culpa da traição recaiu nas costas do Paul. É como se ele tivesse aparecido só pra tumultuar o doce e harmonioso lar de Jules e Nic, sendo que não era nada disso. As duas não iam bem desde antes do Paul aparecer, procurado pelos filhos delas. Todo mundo teve sua parcela de culpa no que aconteceu, mas no fim, Paul foi simplesmente escorraçado por todos, como se ele fosse o vilão e a família, a pobre vítima.[/SPOILER]


As atuações de Anette Benning, Julianne Moore e Mark Ruffalo estão ótimas - tanto que Mark foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (perdeu para Christian Bale, de O Vencedor). Vale a pena ver, mas não achei isso tudo, não.


FICHA TÉCNICA



Elenco: Mia Wasikowska, Mark Ruffalo, Julianne Moore, Josh Hutcherson, Annette Bening, Yaya DaCosta, Kunal Sharma, Rebecca Lawrence.
Direção: Lisa Cholodenko
Gênero: Comédia
Duração: 101 min.

Fonte (sinopse e ficha técnica): Cinepop